O Estado criou a ASAE e a ASAE recriou um país diferente daquele que tínhamos. É certo que um país mais limpo e asseado, mas em contrapartida um país ridiculamente vigiado. Como era de esperar, ao fim de algum tempo começaram a chover críticas, a maioria delas razoáveis. As bolas de Berlim não podiam ser vendidas como sempre; as cozinheiras não podiam congelar os salgados, como sempre; alguns produtos regionais não podiam ser consumidos, como sempre.

Então, o Estado teve outra ideia fabulosa: decidiu fazer um levantamento dos produtos tradicionais que necessitem de um enquadramento específico. Foi aprovado esta semana no Parlamento um grupo de trabalho que se dedicará a essa momentosa questão. De acordo com um deputado do PS, esse grupo vai saber quais os produtos que necessitam de condições especiais para a sua produção, transporte ou comercialização normais.

Ou seja, traduzido em português corrente, o grupo de trabalho vai dizer quais os produtos que não ficam sob a alçada dos regulamentos da ASAE - isto é, quais as excepções à regra.

Ora aqui está uma solução engenhosa para o excesso de leis e de regulamentos: fazer mais leis e regulamentos que limitem as leis e regulamentos já feitos. É um encadeado interessante e que, com imaginação, pode ser levado ao infinito.

É extraordinário, num país onde toda a gente sabe e afirma que há excesso de leis, a existência desta espécie de legisladores compulsivos. E a existência das célebres excepções, buracos e contradições legais pelos quais entram o favor, a pequena corrupção, o golpe.

Ninguém aprende com a experiência?

A música e as elites

As elites sempre tiveram as costas largas, sobretudo quando se trata de culpar alguém. Deve ser por isso que que o Ministério da Educação considera que o ensino especializado de música que se ministra nos Conservatórios deve acabar.

Vamos à democratização do ensino do violino e do oboé. Em breve, os alunos de qualquer escola saberão tanto de música como de matemática. E ver-se-á, então, que foi assim que nasceu um problema que não existia.

LNEC

Pouco a pouco, o Governo vai cedendo. Um Governo assim é um Executivo simpático, tal qual se pretende para épocas eleitorais.

Depois do aeroporto, chegam agora os estudos sobre a terceira travessia do Tejo. Não importa que o Conselho de Ministros tenha aprovado uma resolução a dizer que a travessia era Chelas-Barreiro - não, isso interessa pouco. O que importa é que haja acordos e, se a CIP prefere a Beato-Montijo, com um túnel Algés-Trafaria, o LNEC decide. O estilo impositivo acabou. Agora, voltou o diálogo.

publicado por damasceno às 19:43