As más notícias chegam em catadupa. A Comissão Europeia prevê que os rendimentos das famílias portuguesas em 2008 vão ser pressionados pela inflação (que vai subir), por condições financeiras mais apertadas (juros mais altos e mais dificuldade na obtenção de crédito bancário) e pelas incertezas macroeconómicas, em particular o aumento galopante dos preços do petróleo e da alimentação (que devem crescer 39% este ano!)

Como resultado, Bruxelas prevê pelo terceiro ano consecutivo, desde 2006, que os salários reais venham a cair de novo, penalizando a generalidade dos trabalhadores. Se a isto juntarmos que Portugal é o segundo país europeu onde é maior a desigualdade entre ricos e pobres e que em 2009 passaremos de sétimo a nono país mais pobre da União, sendo ultrapassados pela Eslováquia e Estónia no "ranking" da riqueza por habitante (PIB per capita ajustado pelas paridades do poder de compra), ficamos com uma ideia clara das enormes dificuldades que atravessamos e de quanto temos de nos esforçar para ultrapassar esta situação.

Provavelmente, o que de mais grave tem acontecido em Portugal desde 2002 e que mais consequências dramáticas pode ter no futuro é a pauperização da classe média. E um país sem classe média é uma auto-estrada para o banditismo, a violência e a criminalidade. É sobre isto que têm obrigatoriamente de reflectir os governantes e os empresários: os primeiros porque têm conduzido uma política orçamental onde uma das pedras de toque foi o congelamento salarial durante três anos na função pública; os segundos porque as estatísticas mostram que, da riqueza produzida no país, cada vez é menor a fatia que cabe ao factor trabalho e maior a que vai para o factor capital.

E têm de reflectir pela prosaica razão que um país crescentemente desigual e sem segurança não atrai turismo de qualidade nem o de terceira idade que compra casas para passar uma parte do ano; não atrai quadros qualificados; e não atrai investimento. Ora isto é tudo o que Portugal não pode admitir. Se alguma vantagem comparativa temos, a segurança era, até agora, uma delas. Parece, contudo, estar a perder-se. As explicações podem ser várias (aumento da população nas zonas urbanas, desemprego crescente a afectar a população, em particular os imigrantes, etc.), mas convém não fazer como a avestruz e meter a cabeça na areia: a principal razão para o que estamos a assistir é o empobrecimento da classe média. Evitar que a tendência se torne irreversível deve ser o objectivo de todos os que querem viver num país onde se possa continuar a sair à rua sem medo de ser assaltado.

Última nota: o Estado tem de cortar as suas adiposidades. Mas convém fazê-lo com bom senso. Não é admissível que haja esquadras só com um polícia, que assiste impotente à agressão de um cidadão à sua frente. A ideia que passa é que o país está cada vez mais inseguro - e que a polícia não tem meios para combater o crime.

publicado por damasceno às 22:59