O crédito malparado não cessa de aumentar; os bancos aumentam os ajustamentos por imparidade e o capital tem de ser reforçado; as suas cotações caem com resultados cada vez mais negativos; as casas não se vendem e o mercado imobiliário estagna, fruto de um aperto na concessão do crédito à habitação; as taxas de juro aumentam não dando tréguas às famílias; a inflação não abranda reduzindo cada vez mais o seu rendimento disponível para fazer face ao serviço das dívidas; sentem-se náuseas, dor de cabeça, vómitos; pensou até suicidar-se?

Senhores e senhoras, meninos e meninas: o mágico!

Eu tenho para vós o milagroso remédio para todos os males e maleitas, a miraculosa solução: reavaliamos as dívidas à data de hoje, passamos todos os contratos a prestações crescentes em progressão geométrica de razão de 10% ao mês, e alargamos os prazos para o reembolso da dívida para os 100 anos!

Por cada 100.000 euros de dívida contraída hoje, o cliente paga apenas 50 cêntimos no primeiro mês, e por cada mês que passa a prestação da casa sobe apenas 10%. Ao fim de um ano ainda pagamos 57 cêntimos, ao fim de 10 anos estamos a pagar €1,66 e ao fim de 30 anos 18 euros por mês! Se o devedor sobreviver mais 50 anos estará a pagar €197 mensais. Uma verdadeira ninharia dentro de meio século!

Não é um verdadeiro milagre? Vejamos as prodigiosas vantagens. Em primeiro lugar não há pedinte que não possa hoje endividar-se. O que são 50 cêntimos ao mês, ou mesmo €1,66 dentro de 10 anos? As casas novas, as velhas e até as por fazer vão levar sumiço e os orçamentos familiares vão prodigiosamente duplicar!

O consumo voltará a ganhar asas! Os bancos deixarão de ter calotes e não irão provisionar o que não se incumpre. As cotações subirão em flecha com mais resultados.

O pequeno problema é que no último ano estaremos a pagar 77 mil euros por mês... Estaremos? Nós? Daqui a 100 anos? Já imaginaram o rei D. Carlos a preocupar-se com as nossas dívidas?

O Governo aprovou a dilatação dos prazos para o reembolso das dívidas dos empréstimos bonificados à habitação passando para 50 anos? Tímidos... Vá coragem! Vamos aos 100!

João Duque, Professor Catedrático do ISEG/UTL

publicado por damasceno às 21:30