Os amigos são para as ocasiões...

18.03.08

                              

                                      Palácio Nacional da Ajuda

         Conta-se que certo dia o rei D. José querendo favorecer um seu compadre, modesto tanoeiro da praça alfacinha e sem fortuna, se aproximou dele e em segredo o convidou a fazer torneiras. O artífice terá ficado muito surpreendido com o convite, pois ninguém ao tempo fazia uso de tais peças, mas obedeceu e respeitou o convite que  seu real compadre lhe fizera. 

         Com centenas de torneiras feitas e em armazém, e sem que o rei voltasse a falar no assunto, aproveitou um encontro casual para perguntar a sua majestade se precisava de torneiras no palácio. O rei disse que não, mas que não se preocupasse porque a lei que ia obrigar todas as tabernas do reino a usar torneiras nas pipas e tonéis já estava pronta para sair. E assim um compadre e um afilhado passarem a fazer parte da alta burguesia....

        A tradição mantém-se, mas em vez de torneiras, agora até mete imóveis que fizeram parte do património nacional  como é o caso da cadeia ou convento de Brancanes, em Setúbal, que acaba de ser vendida pelo Estado a uma imobiliária onde António Lamego, um antigo sócio do actual ministro da Justiça, Alberto Costa, tem 99,2% do capital. Isto é que é ser socialista! Os amigos são para as ocasiões...

publicado por damasceno às 19:49

PINHEL - Cidade Falcão

18.03.08

                                                           

A pequena e airosa cidade de Pinhel descobre-se recostada no alto de uma encosta, sobranceira à ribeira das Cabras. A rodear o casario prevalece o olival, com as baixas e rugosas árvores graciosamente dispostas, anunciando terra de mimos. 

Há 230 anos que Pinhel ostenta a epígrafe de cidade, oferecida em momento sublime, pois veio de parceria com o alvará episcopal que ali instituiu novo bispado. Se a categoria de cidade se mantém, mau grado a pequenez do burgo, o mesmo não sucede com a diocese, extinta 111 anos após a sua implantação. Veja Pinhel como cidade de homens livres e inquebrantáveis. Note em cada rosto dos íncolas locais os traços da indomável rebeldia a todas as tentativas de sujeição. À menor ameaça de dominação senhorial logo acautelava o pinhelense de viva voz que a outro senhor não obedecia que não fosse a El-Rei. Desse ímpeto de revolta saiu o corajoso acto de, no século XIV, um magote de bravos acossar o rei de Castela que ali dava passo com o seu exército em debandada após a derrota em Aljubarrota. Foram-se a ele como mastins e arrebataram-lhe o talismã: o falcão de combate. Desde esse momento o falcão passou a integrar as armas de Pinhel, posando vigilante na copa frondosa do pinheiro que identificava a praça militar. Pelo pouco que acima foi dito já muito se pode adivinhar da importância histórica do povoado que o caro leitor admirará da Trincheira, parque municipal que dispõe de um alto miradouro metido entre o bosque. Despegue a caminho da parte histórica da cidade e infiltre-se pelas tortas e íngremes vielas. No alto examinará as duas torres que se conservam do castelo. Tope numa a robustez e noutra a graciosidade.. Aquela dada pelo duro e fechado granito, onde já se improvisou um cárcere, esta oferecida pelos mata cães, a gárgula em jeito de arrear a calça e a janela manuelina virada à cidade. A dois passos tem a Igreja de Santa Maria, de ar severo, onde os traços góticos se misturam com a base românica e em cujo interior existe um nicho com adorável escultura em pedra de Ança, representando as «Santas Mães». Saia do casario de forma a contornar a longa muralha, aqui preservada, acolá esbarrondada, mais além aproveitada para suporte de outras construções. Pode dali também admirar o apreciável panorama que oferece o longo vale com as empinadas ladeiras que se levantam a partir da ribeira das Cabras, densamente povoadas de oliveiras e vinhedo. Junto à vetusta Igreja das Trindades, situada fora de muros, olhe para a imponente ruína, cujo telhado desabou, mantendo apenas as grossas paredes. Atente no nicho que constitui uma das catorze estações da Via Sacra, ali colado às colunas da porta gótica. Diabrice, atentado ao bom gosto, escarro no majestoso monumento, diremos. Olhe melhor e atente na necessidade de tal construção, por mais rudimentar e maior fealdade que lhe atribuamos. Comodamente recostado à velha construção, o reles nicho foi a garantia de que contra o edifício ninguém atentaria. As gentes, embebidas no culto, zelosas no cuidar da pequena estação, garantiram também a preservação da Igreja velha. Com estes comentários e evasivas já vê o viandante que muito se pode navegar em conjecturas, perdendo-se o fio à meada e esgotando-se o espaço para que há comprometimento. Resta pois deixá-lo à deriva, indicando contudo: a Casa Grande, o pelourinho, a Igreja da Misericórdia, a Igreja de São Luís, o Paço Episcopal, a Igreja e Convento de Santo António, os inúmeros solares e palacetes.  Acabe visitando o museu municipal no edifício dos antigos paços do concelho. Em exposição há valiosos testemunhos do passado áureo da cidade e objectos artesanais da vida simples. Deixe-se fascinar pela colecção de ex-votos em quadros pintados com singeleza e emoldurados de forma rude. São o testemunho da fé popular, da invocação celestial, do cumprimento de promessas pela cura própria ou de ente querido. Cada representação alega momentos de aflição e de angústia e uma inabalável crença na intervenção divina. Destacam-se as invocações a Nossa Senhora das Fontes, a que o povo local manifesta especial devoção. Para recuperar ânimo, resta-lhe ir à «Tasca», restaurante emblemático de Pinhel. Se aprecia petiscos encontrou o paraíso. Peixe do rio, moelas, pataniscas, passarinhos, salada de polvo e de orelha de porco, tudo preparado à boa maneira regional. Para beber sugere-se o tinto local, o S.João I, produzido na adega cooperativa (...)                                             

publicado por damasceno às 11:29

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